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A Era sem fogo: tudo o que vocĂȘ precisa saber sobre o crudivorismo

Este texto foi publicado originalmente na Revista Inspira, edição #1, junho de 2019.



Imagine a cozinha da sua casa! Agora retire desta cena todo tipo de eletrodomĂ©stico capaz de esquentar a sua comida: fogĂŁo, forninho, micro-ondas, fritadeira elĂ©trica, misteira etc. Por fim, responda: qual serĂĄ o seu cardĂĄpio do dia para as trĂȘs principais refeiçÔes?


Essa pergunta lhe pegou de surpresa? Antes de descobrirem que o atrito entre pedras ou gravetos gerava o fogo – o que aconteceu no período neolítico, entre 400 mil e 1 milhão de anos atrás –, os hominídeos viviam da coleta de frutos silvestres e, em menor grau, da caça de animais de pequeno porte, que eram ambos consumidos crus.


Estima-se que essa rotina durou cerca de alguns milhĂ”es de anos, embora tudo nesse campo nĂŁo passe de suposiçÔes cientĂ­ficas, uma vez que carecemos de maiores evidĂȘncias arqueolĂłgicas e antropolĂłgicas dessa Ă©poca.


Dominar o fogo simbolizou para esse ancestral uma nova forma de viver. A partir daĂ­ ele podia se aquecer do frio, afastar animais selvagens, acabar com a escuridĂŁo noturna e cozinhar. Charles Darwin, o famoso naturalista britĂąnico conhecido por seu papel na biologia evolucionista, afirmou que depois da linguagem, dominar o fogo foi certamente a maior descoberta da humanidade.


Cozida, a carne demorava a apodrecer e os nutrientes vegetais seriam melhor assimilados, aumentando a capacidade nutritiva e fazendo com que o pouco que comiam vivendo da coleta e da caça fosse o suficiente, a quantidade de calorias diĂĄria necessĂĄria. Antes da descoberta da agricultura (que aconteceu entre 10.000 e 12.000 anos atrĂĄs) e da consequente sedentarização humana – quando passamos a nos fixar em um lugar –, Ă©ramos grupos nĂŽmades em busca de comida, e nem sempre a natureza era generosa em oferecer grandes quantidades de frutos comestĂ­veis, por exemplo.


Para alguns cientistas, essa reserva de energia possibilitada pela comida cozida teria fornecido as calorias necessĂĄrias que fizeram com que o cĂ©rebro humano se expandisse e, consequentemente, aumentasse a nossa capacidade de raciocĂ­nio. Na Universidade de Harvard, ainda hoje, pesquisadores tentam testar essa tese de que a relativa inteligĂȘncia que temos tem conexĂ”es com a comida cozida.


Para o nutricionista Eduardo Corassa, no entanto, sua capacidade mental nunca esteve melhor. Sem comer nada cozido hĂĄ quase 13 anos, sua dieta Ă© vegana, composta majoritariamente por frutas e vegetais crus, e a capacidade cognitiva Ă© apenas um dos melhoramentos que ele observou em sua experiĂȘncia pessoal. Ele adiciona ainda: “uma incapacidade de ficar doente, uma sensação de bem-estar e capacidade fĂ­sica extremamente elevados, e a felicidade de comer quilos e quilos de comida e nunca engordar”.


Eduardo Ă© um dos principais representantes de um movimento alimentar ambientalista que tem ganhado força no Brasil: o crudivorismo ou frugivorismo. Em seu canal de YouTube, o SaĂșde Frugal, ele reĂșne mais de 68 mil seguidores que buscam por informaçÔes constantes a respeito desse tipo de alimentação, sobre a qual Corassa advoga utilizando seus conhecimentos de formação com base em estudos cientĂ­ficos e experiĂȘncia prĂłpria.


A histĂłria pessoal do nutricionista com o crudivorismo foi o que o motivou a querer compartilhĂĄ-la com um pĂșblico massivo na internet. “Foi o que salvou a minha vida e Ă© o que motiva ao trabalho com o SaĂșde Frugal. Eu era diabĂ©tico, precisava fazer duas cirurgias, eu era uma criança bem doente e ao adotar o crudivorismo aos 22 anos foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Tem 12 anos que eu nĂŁo tenho nenhuma dor de garganta, um espirro, uma tosse”, nos conta.


Apesar do tom apaixonado, Eduardo Ă© consciente em lembrar que saĂșde nĂŁo se faz apenas com alimentação, mas com um “estilo de vida” saudĂĄvel, o que para ele e para os higienistas naturais (sistema de saĂșde que segue) compreende: “dormir cedo, pegar sol, praticar atividade fĂ­sica, evitar estresse, comer alimentos adaptados Ă  nossa espĂ©cie, fazer jejum”, entre outras coisas.


A premissa dos crudĂ­voros Ă© de que a cocção dos vegetais e frutas destrĂłi nutrientes essenciais e enzimas que ajudariam em nossa digestĂŁo. Dessa forma, a Ășnica temperatura que eles acham vĂĄlida Ă© atĂ© 40ÂșC, um calor prĂłximo do que pode ser suportado pela pele humana, o considerado “morno”. Uma temperatura maior do que isso, de acordo com essa postura alimentar, mataria a vida existente no alimento e o tornaria incapaz de nos fornecer vitalidade.


Corassa nos explica o que acontece com o alimento durante o cozimento: “Se vocĂȘ cozinha o alimento, se vocĂȘ tem a reação de Maillard, isso produz 420 substĂąncias tĂłxicas (cancerĂ­genas, mutagĂȘnicas, citotĂłxicas, ceratogĂȘnicas, clastogĂȘnicas e prĂł-inflamatĂłrias), assim como a perda de nutrientes. Tem, talvez, a melhora da biodisponibilidade de um ou outro nutriente como o licopeno, a vitamina A e o betacaroteno, mas ainda assim Ă© insensato”.


A reação de Maillard, mencionada por ele, Ă© um processo comum ao assar pĂŁes e carnes, por exemplo, sendo responsĂĄvel por dar o aspecto dourado ou tostado de algumas receitas. Para que ele ocorra devem haver carboidratos, aminoĂĄcidos ou proteĂ­nas (que sĂŁo cadeias de aminoĂĄcidos) e uma temperatura de 120ÂșC ou mais. Ou seja, nĂŁo Ă© nada incomum para quem consome uma dieta cozida.


As alegaçÔes dos crudĂ­voros incluem o argumento de que em meio a mais de 700 mil espĂ©cies de animais existentes na natureza, somos a Ășnica que cozinha seus alimentos e a Ășnica que sofre com doenças degenerativas. “Cansei de ouvir as recomendaçÔes usuais porque percebi que vocĂȘ nĂŁo fica melhor. EntĂŁo busquei, pesquisei, achei que fazia todo o sentido, nĂ©? HĂĄ 700 mil espĂ©cies no planeta que vivem de comida crua, sĂł o ser humano cozinha e morre de doenças crĂŽnicas degenerativas. EntĂŁo fez muito sentido, jĂĄ que nĂłs somos classificados pela biologia como primatas antropoides e todos os primatas antropoides na natureza, a antropologia indica, vivemos de fruta durante 8 milhĂ”es de anos”, explica Eduardo Corassa.


"Qualquer alimento que precisa ser consumido cozido, não é um alimento natural à espécie humana" - Eduardo Corassa

Se vocĂȘ atĂ© agora estĂĄ completamente enojado pensando que eles consomem carnes cruas ou empolgado supondo que vivem de sushis, carpaccio ou ceviche, se enganou. Diferente da famosa dieta paleolĂ­tica, que nos Ășltimos anos foi muito comentada no segmento fitness ao tambĂ©m proporcionar uma releitura da nossa natureza prĂ©-histĂłrica; na alimentação crudĂ­vora, a carne e os seus derivados sĂŁo excluĂ­dos. SĂł se come frutas e vegetais crus e, em alguns casos, sementes germinadas, fermentados naturais e desidratados. Alimentos industrializados tambĂ©m ficam de fora.


Apesar de nascidos da terra, tubĂ©rculos, como a batata e grĂŁos como o arroz e o feijĂŁo tambĂ©m nĂŁo entram no cardĂĄpio crudĂ­voro. “Qualquer tipo de alimento que precisa ser consumido cozido, nĂŁo Ă© um alimento natural Ă  espĂ©cie humana. Um chimpanzĂ© pigmeu, mais especificamente o bonobo, compartilha 99,3% do nosso material genĂ©tico e ele nĂŁo come batata, arroz, feijĂŁo, vaca...Ainda mais cozidos, nĂ©â€, exemplifica o nutricionista crudĂ­voro.


Eduardo Corassa Ă© nutricionista e crudĂ­voro hĂĄ mais de uma dĂ©cada. Autor de livros, ele tambĂ©m divulga o tema no canal de YouTube SaĂșde Frugal

Foto: Divulgação/ SaĂșde Frugal


Perguntado se havia alguma contraindicação ao crudivorismo, Corassa responde negativamente. “Todos nĂłs nascemos crudĂ­voros, a gente escolhe nĂŁo permanecer crudĂ­voro ao queimar nossa comida e chamĂĄ-la com o eufemismo de ‘comida cozida’”, define ele. “Existem contraindicaçÔes quanto a queimar a sua comida. Por exemplo, algumas das toxinas formadas pelo cozimento sĂŁo relacionadas Ă  cĂąncer, doenças cardiovasculares, diabetes, endometriose, sĂ­ndrome do ovĂĄrio policĂ­stico, doenças autoimunes e por aĂ­ vai. AtĂ© onde eu sei na literatura, eu desconheço qualquer contraindicação contra uma dieta crua”, pontua o nutricionista.


Que frutas e vegetais sĂŁo sinĂŽnimo de saĂșde nĂŁo Ă© novidade para ninguĂ©m. Fomos educados com puxĂ”es de orelha que diziam “coma mais vegetais” e as saladas sempre foram a refeição intuitivamente mais procurada por quem quer levar um estilo de vida saudĂĄvel. De fato, um estudo encomendado pela Organização Mundial da SaĂșde, realizado com mais de 60 mil pessoas, revelou que o consumo de legumes Ă© o grande responsĂĄvel por uma boa saĂșde, seguido pelas verduras e frutas. AlĂ©m disso, o MinistĂ©rio da SaĂșde do Brasil recomenda a preferĂȘncia por alimentos in natura, frescos e de conhecida procedĂȘncia, em detrimento dos alimentos industrializados.


Com base nessa noção simples e consolidada de que vegetais sĂŁo bons para a saĂșde, Eduardo Corassa defende o crudivorismo, enquadra sua prĂĄtica dentro dos parĂąmetros cientĂ­ficos e afirma nĂŁo discernir das recomendaçÔes usuais do CRN (Conselho Regional de Nutrição). “Por uma perspectiva acadĂȘmica, frutas e vegetais crus sĂŁo inversamente correlacionados a todo tipo de doença crĂŽnica degenerativa. AtĂ© mesmo fruta Ă© inversamente correlacionado Ă  diabetes. Quando as pessoas pensam que seria o causador”, aponta.


O que Ă© um alimento?

Uma face mais new wave (que de “new” nĂŁo tem nada) da filosofia crudĂ­vora leva a enxergar o alimento para alĂ©m: como uma fonte de vida que fornece vida para outros seres vivos. Dessa forma, nĂŁo se come nada que tenha relação com a morte. É a chamada alimentação viva, que enxerga as sementes das plantas germinadas como potĂȘncias de nova vida entrando em nossos organismos e modificando-nos por inteiro.


Na alimentação viva, o alimento passa a ser compreendido como fonte de “energia vital”. Ele nĂŁo Ă© apenas o responsĂĄvel por manter-nos vivos, como tambĂ©m ativa e regenera a vida. Ele Ă© vida.


Essa filosofia alimentar foi sendo mantida pela tradição oral naturalista ao longo dos tempos. Foi no inĂ­cio do sĂ©culo XX que o mĂ©dico higienista francĂȘs Edmond SzĂ©kely traduziu os pergaminhos do Evangelho EssĂȘnio da Paz escrito originalmente em aramaico pelo apĂłstolo JoĂŁo. Os essĂȘnios eram um grupo messiĂąnico do movimento judaico que foi fundado em meados do sĂ©culo 2 antes de Cristo nas proximidades do que hoje Ă© a CisjordĂąnia. Esse povo acreditava em rituais de purificação e sua alimentação era basicamente frutas e legumes crus.


SzĂ©kely propĂŽs entĂŁo um renascimento dessas prĂĄticas no mundo ocidental, criando o movimento dos novos essĂȘnios da paz e, como contribuição, classificou os alimentos em quatro grupos:


â–Ș BiogĂȘnicos (que favorecem a regeneração da vida): sementes germinadas e brotos.

â–Ș Bioativos (ativam a vida, por serem plantas que ainda manterem a vitalidade): frutas, legumes, verduras frescas e cruas.

â–Ș BioestĂĄticos (mantĂ©m a vida): alimentos cozidos, congelados e refinados.

â–ȘBiocĂ­dicos (consomem a vida): alimentos com produtos quĂ­micos ou radiaçÔes, conservantes e aromatizantes.


Essa abordagem mais espiritualista do alimento perpassa ainda filosofias antigas como a indiana, que mencionava que os alimentos naturais possuem prana; e a chinesa, que trabalha com a noção de chi. A necessidade de ressignificação do alimento nos dias atuais é abordada como um ato de transformação do coletivo no Livro Vivo, disponibilizado on-line pelo projeto Terrapia, que integra os Programas Fiocruz Saudåvel. O livro, bem como o projeto, populariza muitas informaçÔes teóricas e pråticas sobre a alimentação viva.


“A Terra Ă© um ser vivo do qual somos o sistema nervoso"

Por que o que vocĂȘ come teria a ver com transformaçÔes a nĂ­vel coletivo?


O pesquisador e ambientalista James Lovelock, inventor de muitos dos instrumentos cientĂ­ficos utilizados pela Nasa para anĂĄlise de atmosferas extraterrestres e superfĂ­cie de planetas, inventou tambĂ©m uma polĂȘmica hipĂłtese de que nosso planeta seria um ser vivo.


A conclusĂŁo pode parecer fantasiosa para quem nĂŁo entende que Lovelock, na verdade, estava se utilizando de uma metĂĄfora, muito embora ele mesmo tenha afirmado em entrevistas que a biologia precise rever e ampliar o conceito de “vida”. A conclusĂŁo Ă  qual o pesquisador chegou ainda nos anos 1960 analisando, Ă  distĂąncia, a vida em Marte foi a de que a composição quĂ­mica da atmosfera desse planeta estĂĄ morta, isto Ă©, sem muita atividade, em um equilĂ­brio quĂ­mico; enquanto a da Terra estĂĄ viva, com uma quĂ­mica desequilibrada, o que Ă© um indĂ­cio da existĂȘncia da vida.


Para ele, “a Terra Ă© um ser vivo do qual somos o sistema nervoso” e com uma “retirada sustentĂĄvel” conseguirĂ­amos cuidar de sua saĂșde debilitada e do prognĂłstico que o autor faz para o futuro do planeta com os avanços do aquecimento global.


De acordo com o Livro Vivo do projeto Terrapia, iniciativa de conscientização sobre a alimentação viva: “Nossa maior contribuição ambiental Ă© a saĂșde de nosso corpo! Ao se alimentar dos produtos da terra ecologicamente cultivados, e criando hĂĄbitos que promovam a sustentabilidade do solo, estamos contribuindo para a preservação da vida, seguindo a mĂĄxima: solo sadio, planta sadia, homem sadio!”. Se o homem e o planeta fazem parte de um mesmo organismo, a medicina e a ecologia devem andar de mĂŁos dadas, pois uma desencadeia reflexos na outra.


Eduardo Corassa tambĂ©m acredita no potencial transformador do crudivorismo, segundo ele: “Uma dieta crua baseada em frutas e vegetais. Esse tipo de alimentação Ă© a solução para o planeta. É uma forma da gente reverter todos os problemas criados pela raça humana”.


Sobre a capacidade de transformação social e ambiental da alimentação crua ainda nĂŁo hĂĄ muitas pesquisas, mas em 2016, pesquisadores da Universidade de Oxford revelaram os resultados de um estudo que levantava os impactos de diferentes dietas na saĂșde das pessoas e no meio ambiente simulando o ano de 2050, um futuro bem prĂłximo (clique aqui para ler o artigo em inglĂȘs).


As dietas em questĂŁo eram: a atual; a que segue as diretrizes globais para uma alimentação saudĂĄvel; a ovo-lacto-vegetariana; e a vegetariana estrita. Entre elas, a vegetariana estrita (vegana) foi a que apresentou os melhores resultados. Ela poderia salvar atĂ© 8 milhĂ”es de vidas humanas por ano, contribuiria para os cofres pĂșblicos em economia com saĂșde pĂșblica, reduziria as emissĂ”es de gases de efeito estufa e pouparia U$1,5 trilhĂŁo de dĂłlares com danos oriundos do aquecimento global. Os resultados ainda mostraram que o maior motivo para a redução da mortalidade seria o menor consumo de carne vermelha e, em segundo lugar, o maior consumo de frutas e vegetais.


"A alimentação frugĂ­vora e o estilo de vida saudĂĄvel revolucionaram a minha vida e a minha saĂșde" - Nanda Cury

Vivendo no paraĂ­so

“A alimentação frugĂ­vora e o estilo de vida saudĂĄvel revolucionaram a minha vida e a minha saĂșde. Basicamente vivencio saĂșde plena, sinto muita energia e mais disposição e que a cada dia o meu corpo estĂĄ se desintoxicando. A conexĂŁo com a natureza tambĂ©m foi potencializada”. Esse Ă© o depoimento da especialista em marketing digital Nanda Cury, vegana hĂĄ seis anos e frugĂ­vora/crudĂ­vora hĂĄ dois.


HĂĄ alguns anos, sua irmĂŁ recebeu um diagnĂłstico de cĂąncer. Nanda, entĂŁo, começou a pesquisar formas naturais de prevenir e tratar o cĂąncer. “Descobri um nutricionista brasileiro e crudĂ­voro no Youtube e vĂĄrias pessoas que se curaram de inĂșmeras doenças, inclusive cĂąncer, com esse tipo de alimentação”, relembra. O nutricionista em questĂŁo foi o prĂłprio Corassa. Disposta a tentar, Nanda Cury adotou o crudivorismo como uma forma de inspirar a irmĂŁ a fazer uma mudança na alimentação.


Hoje, sua irmĂŁ estĂĄ bem, tambĂ©m virou vegana, mas nĂŁo crudĂ­vora. A inspiração que queria levar Ă  irmĂŁ, chega aos quase 23 mil seguidores que a acompanham diariamente em seu perfil no Instagram. “Foi uma mudança tĂŁo profunda que hoje me sinto inspirada a compartilhar dicas e as informaçÔes sobre estilo de vida para que mais pessoas possam vivenciar os benefĂ­cios”, declara a influenciadora que, em 2018, foi reconhecida pela vice-presidente do Google Maps como uma influenciadora relevante, que gera impacto social positivo por conta de seu ativismo em prol da causa vegana.


No dia 22 de abril de 2018, Dia Internacional da Terra, Nanda colocou em ação o projeto PicNic Frugi. Sua ideia era reunir pessoas em um parque para compartilhar frutas, vegetais e informaçÔes sobre a alimentação natural vegana, alĂ©m do desafio de gerar zero lixo. PrĂłximos Ă  natureza, Nanda planta a semente do crudivorismo entre os participantes. Esse projeto colaborativo jĂĄ passou por Salvador, SĂŁo Paulo, Santos, Rio de Janeiro e SĂŁo Francisco (Estados Unidos) e cada vez reĂșne mais interessados.



Nanda Cury Ă© adepta do frugivorismo hĂĄ anos, idealizadora do PicNic Frugi e autora do e-book Guia da Semana Frugi

Foto: Carol Cury


Na experiĂȘncia de Nanda, o frugivorismo significou a “cura e redução de diversos sintomas e desequilĂ­brios, como ansiedade, compulsĂŁo alimentar, depressĂŁo, gastrite, alergia, pele seca”, enumera ela.


Eduardo Corassa, em sua experiĂȘncia profissional como nutricionista, tambĂ©m observa histĂłrias como a dele e a de Nanda se repetirem. “Eu vejo pacientes atĂ© mesmo com diabetes tipo 1, que Ă© considerada uma doença autoimune irreversĂ­vel, adotando uma dieta de frutas e praticamente revertendo a doença. Eu jĂĄ vi cĂąnceres terminais, e coisas do gĂȘnero, onde as pessoas estĂŁo vivas e saudĂĄveis 20, 30, 40 anos depois. JĂĄ ouvi relatos, histĂłrias e conheci pessoas”, comenta ele.


Sem o arroz com feijĂŁo, o que nos resta?

Com o arroz e o feijĂŁo de cada dia fora do cardĂĄpio, vocĂȘ pode estar pensando: o que eles comem? Bem, Eduardo Corassa revela que chega a comer atĂ© 6 quilos de comida em um dia.


“GrĂŁos sĂŁo acidificantes, contĂȘm excesso de proteĂ­na e sĂŁo literalmente comida de pĂĄssaro. PĂĄssaros sĂŁo adaptados Ă  grĂŁos, nĂŁo os primatas antropoides. NĂłs nĂŁo fomos feitos para o consumo deles. Tanto Ă© que a gente precisa temperar, germinar e fazer vĂĄrios processos”, informa o nutricionista explicando o motivo de feijĂŁo e arroz nĂŁo serem condizentes com a dieta crudĂ­vora.


No dia a dia, a alimentação de Corassa, por exemplo, consiste em consumir os vegetais da Ă©poca, que costumam tambĂ©m estar mais baratos no mercado: “EntĂŁo, Ă© basicamente sempre fruta e vegetal. Oleaginosas, cenoura e beterraba, esporadicamente. Às vezes, uma ervilha e um cogumelo. A base mesmo Ă© fruta e vegetal. Como grandes quantidades de fruta ao longo do dia e uma imensa salada durante a noite”, resume.


JĂĄ para Nanda Cury, em sua rotina nĂŁo pode faltar couve e banana. “Eu como couve, quase todos os dias, porque Ă© dos vegetais mais baratos e fĂĄceis de encontrar. Vegetais verde-escuros tĂȘm bastante ferro. Em casa sempre tem banana. É uma fruta versĂĄtil, que combina com muitas outras, dĂĄ para comer in natura e para preparar de vĂĄrias formas”, explica.


Quando Nanda menciona “preparar”, ela está se referindo a receitas cruas. Não se trata apenas de descascar os alimentos e ingerí-los. Em alguns casos, nossa ligação afetiva com a comida demanda que possamos comer algo parecido com o que comíamos antes, tendo a mesma forma, textura e sabor de bolos, sorvetes, macarronadas, pizzas, sopas e outros pratos.


Algumas outras receitas, jĂĄ estamos acostumados a consumir integralmente cruas e nem sequer pensamos que jĂĄ estamos inserindo alimentação crua na dieta. É o caso de molhos como como a guacamole, saladas, sucos e vitaminas. Existem diversas receitas no YouTube. Eduardo Corassa tem dois livros sobre o tema, o CrulinĂĄria Frugal, nas versĂ”es receitas salgadas e sobremesas. Recentemente, Nanda Cury lançou um e-book. O Guia da Semana Frugi, como foi intitulado, traz dicas, informaçÔes e receitas, para inspirar quem deseja testar uma semana frugĂ­vora e incluir mais frutos e vegetais, de forma saborosa, na alimentação.


Em um levantamento simples, que nĂŁo buscava por frutas silvestres nĂŁo-comerciais, o Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE) informou que existem cerca de 200 frutas identificadas entre brasileiras e estrangeiras.


Apesar da variedade de frutas e de vegetais comestĂ­veis que temos em nosso paĂ­s, uma pesquisa tambĂ©m realizada pelo IBGE, em parceria com o MinistĂ©rio da SaĂșde, publicada em 2011 indicou que a ingestĂŁo diĂĄria de frutas, legumes e verduras do brasileiro estĂĄ abaixo dos nĂ­veis recomendados pelo MinistĂ©rio da SaĂșde (400g) para mais de 90% da população.


TransgĂȘnicos: o fruto proibido?

A ideia do poder vital das frutas e vegetais em nossa saĂșde Ă© muito antiga. O mundo, no entanto, mudou bastante e, hoje, a comida que chega em nossas mesas nĂŁo tem mais a pureza de um jardim mĂ­tico. Em 2017, de acordo com pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, o brasileiro jĂĄ consumia uma mĂ©dia de 7 litros de agrotĂłxicos por ano.


Essa enorme quantidade de pesticidas, herbicidas, fungicidas, entre outros, que ingerimos estĂŁo relacionadas a problemas de saĂșde que vĂŁo de intoxicaçÔes alimentares ao cĂąncer.


O consumo de vegetais crus seria, ainda assim, uma escolha saudĂĄvel?


Eduardo Corassa explica que ninguĂ©m sugere que agrotĂłxicos sejam benĂ©ficos Ă  saĂșde, entretanto, afirma que: “É melhor levar uma dieta crua convencional, com alimentos com agrotĂłxico, do que uma dieta cozida com alimentos com agrotĂłxicos”. Ele justifica: “A literatura mĂ©dico-cientĂ­fica mostra que Ă© melhor consumir frutas e vegetais do que evitĂĄ-los por causa dos agrotĂłxicos. Por causa dos compostos proativos, fitonutrientes, vitaminas e minerais que sĂŁo extremamente benĂ©ficos Ă  saĂșde e protegem mais, mesmo com agrotĂłxico”.


O nutricionista alerta ainda para uma comparação com a carne, que Ă© um dos produtos alimentares mais ricos em agrotĂłxicos, o que ocorre por meio do processo de bioacumulação. “A vaca come soja com agrotĂłxico por quatro anos – durante o tempo de sua vida – e ela faz bioacumulação. Ela vai acumulando todos os agrotĂłxicos das 100 mil plantas de soja que ela comeu. Quando um ser humano vai comer carne, queijo e leite acaba fazendo biomagnificação, ou seja, ele vai comer dez, mil vacas na sua vida, e vai consumir o agrotĂłxico que ela consumiu em cada planta que ela comeu”, explica ele.


A rotina alimentar de Nanda Cury, por exemplo, se divide entre orgĂąnicos e nĂŁo-orgĂąnicos. “Em casa, priorizo o consumo de orgĂąnicos, por serem mais nutritivos, saudĂĄveis e sustentĂĄveis, mas fora de casa como o que tem. Procuro evitar consumir morangos, tomates, pimentĂ”es, milho e os vegetais transgĂȘnicos. Quando o alimento nĂŁo Ă© orgĂąnico, evito comer a casca, que Ă© onde o agrotĂłxico fica mais concentrado”, descreve a profissional de marketing digital.


Nanda lembra ainda que o cozimento nĂŁo tira os agrotĂłxicos e aproveita para fazer um apelo: “Essa ideia de o orgĂąnico ser mais caro precisa mudar. Tudo depende de onde vocĂȘ compra. Se comprar nos mercados provavelmente serĂĄ mais caro. Mas se vocĂȘ frequentar feiras orgĂąnicas e comprar direto do produtor sai mais em conta, muitas vezes o preço Ă© o mesmo ou atĂ© mais barato que o convencional, especialmente quando se trata de alimentos da Ă©poca, que sĂŁo abundantes”. Abaixo, colocamos algumas informaçÔes que podem facilitar essa busca pelos orgĂąnicos para que vocĂȘ possa sempre se alimentar com mais qualidade.


CrudĂ­voro ou nĂŁo, uma coisa Ă© certa. O brasileiro nĂŁo perderia em nada se incluĂ­sse mais frutas e vegetais em sua alimentação. A descoberta de novos sabores enriquece a saĂșde e o paladar de quem come!


De volta Ă  natureza

O passo a passo da alimentação crudívora


Procure orientação profissional

Essa dica Ă© uma regra. Cuidar da saĂșde Ă© muito importante. Portanto, nĂŁo se arrisque seguindo dietas da prĂłpria cabeça ou porque achou interessante! Procure ajuda de um nutricionista ou nutrĂłlogo que simpatize com essa postura alimentar. Isto Ă©, um profissional que esteja atualizado frente Ă s pesquisas referentes ao veganismo e suas vertentes. Feito isso, aĂ­ vĂŁo algumas dicas para a adaptação ao estilo de vida crudi-frugi-vegano.


Comece aos poucos

Nanda Cury dĂĄ uma dica de quem jĂĄ passou por isso:

“Pense na ideia de incluir alimentos novos e aumentar as suas opçÔes, o cĂ©rebro nĂŁo gosta da ideia de restrição. Se conecte com a ideia de abundĂąncia, de comer Ă  vontade, de alimentação colorida e de se desafiar”.


Alimentos crus sĂŁo ricos em fibras e em sais minerais. Mesmo uma Ășnica refeição por dia consistindo inteiramente de frutas terĂĄ um efeito revolucionĂĄrio na sua saĂșde. O lema de Nanda Ă© “Coma mais frutas e vegetais! (E deixe os animais em paz)”.


Conheça novas frutas e vegetais

Preze pela variedade: vegetais tĂȘm mais proteĂ­nas e minerais, frutas tĂȘm mais carboidratos e vitaminas. Um equilibra o outro. NĂŁo se limite! Nanda sugere que vocĂȘ considere tambĂ©m conhecer pequenos produtores e plantar seu prĂłprio alimento, se houver espaço em sua casa.


Vegetais da estação

As frutas e verduras da estação estĂŁo em seu melhor estado nutricional, pois contĂȘm vitaminas e minerais em maiores proporçÔes. SĂŁo frescas, mais saborosas e mais baratas. AlĂ©m disso, elas tendem a ser menos contaminadas com agrotĂłxicos.


Tenha sempre bananas e couve em casa

Além de mais acessíveis, trazem importantes contribuiçÔes nutricionais e são bastante versåteis para receitas. O abacate também é um trunfo.


Frequente a feira local

Frequente feiras locais, conheça os fornecedores e incentive a economia de onde vocĂȘ mora.


“Pesquise em sites como o Mapa da Feira OrgĂąnica onde tem orgĂąnicos perto de vocĂȘ”. A dica Ă© da influenciadora crudĂ­vora Nanda Cury.


Busque informação responsåvel

Nanda Cury dĂĄ uma dica bem acessĂ­vel em tempos de conexĂŁo: “Busque informaçÔes, siga pessoas que praticam esse estilo de vida na internet e que possam te inspirar nessa jornada”. Mas veja bem quem vocĂȘ estĂĄ seguindo e tenha consciĂȘncia de que nĂŁo se trata de uma dieta que visa emagrecimento. A youtuber Rawvana (protagonista de uma polĂȘmica na internet nos Ășltimos meses) estava consumindo uma dieta diĂĄria de 1.200 calorias com foco no emagrecimento. O que Eduardo Corassa considera um absurdo para uma pessoa adulta, conforme comentou recentemente no Instagram.


Suprindo suas necessidades calĂłricas

Use a ferramenta gratuita de contagem de calorias Cronometer para ter certeza de que estĂĄ comendo o suficiente. Como vocĂȘ jĂĄ deve ter percebido, crudĂ­voros costumam comer grandes quantidades diĂĄrias. Eduardo Corassa estima ingerir 6 quilos de alimentos por dia.


Tenha paciĂȘncia com vocĂȘ

Nanda Cury revelou que “sentir o cheiro de comidas com as quais temos relaçÔes afetivas e sociais Ă© desafiador”, e inclusive afirmou jĂĄ ter recaĂ­da e comer comida cozida depois de sua transição alimentar, “mas me senti tĂŁo mal fisicamente e energeticamente que isso sĂł fortaleceu o meu desejo de me manter no objetivo”, conta.

Tenha um foco claro em seus objetivos, mas tenha paciĂȘncia consigo mesmo. NĂŁo se compare a ninguĂ©m. Cada um passa por seus prĂłprios processos.



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